Ticiano

Marcelo de Souza Silva (2010)

Ticiano - Auto-Retrato

Ticiano (c. 1490-1576) – Auto-Retrato, c. 1560 – Óleo sobre tela, 86 x 65 cm – Madrid, Museo Nacional del Prado

Ticiano (ou Tiziano) Vecellio (c. 1490-1576), pintor italiano, foi um dos principais artistas da escola veneziana de pintura do Renascimento e um dos mais importantes nomes do mundo da arte. A principal característica de sua obra é a sua aplicação e uso da cor, tornando-o um dos mais influentes artistas ocidentais e antecipando, em muitos aspectos, algumas características do Maneirismo e do Barroco. Em sua longa vida, também se caracterizou por sua versatilidade temática, realizando desde retratos, até pinturas religiosas, mitológicas e paisagens.

Nasceu em Pieve di Cadore, uma pequena cidade no vale de Piave, nos Dolomitas, em cerca de 1490, vindo de uma família fidalga. Era o quarto filho de Gregório Vecellio, um distinto conselheiro e soldado local. Foi para Veneza entre os 10 e 12 anos de idade, tendo estudado primeiramente no atelier de Sebastiano Zuccato, um artista de pouco relevo, posteriormente se transferindo para o atelier de Gentille Bellini (1429-1507) e finalmente para o do célebre pintor Giovanni Bellini (1430-1516), irmão de Gentile.

Giovanni Bellini é considerado, no dizer do historiador da arte H. W. Janson (1996, p. 205), “um poeta da luz e da cor”. No período renascentista, Veneza possuía fortes ligações comerciais com o norte da Europa, levando Bellini a ser influenciado pela pintura flamenga e a explorar novas possibilidades com as então recentes técnicas de utilização da tinta a óleo, desenvolvidas na região de Flandres. A utilização deste material favorecia a criação de uma chamada unidade atmosférica na pintura, característica na qual a luz e a cor desempenhavam um importante papel expressivo na exploração de conteúdos emocionais, aumentando sua importância no resultado e impacto final da obra.

Bellini - São Francisco em Êxtase

Giovanni Bellini (1430-1516) – São Francisco em Êxtase, c. 1485 – Óleo sobre painel, 123 x 140 cm – New York, Frick Collection

Na obra São Francisco em Êxtase (figura acima) pode-se perceber a mesma preocupação em Bellini que a de pintores flamengos com os detalhes da paisagem, bem como a diminuição de tamanho do protagonista dentro de um cenário maior, mas principalmente com a criação de uma atmosfera especial utilizando efeitos de luz e cor. São Francisco é banhado por luz divina, que confere à pintura toda uma carga emocional. Ticiano sofreria grande influência de seu mestre, bem como de outro pintor integrante do atelier de Bellini, Giorgione (c. 1477-1510), com quem trabalharia em conjunto em seus primeiros anos.

Giorgione - A Tempestade

Giorgione (c. 1477-1510) – A Tempestade, c. 1505 – Óleo sobre tela, 82 x 73 cm – Veneza, Accademia

 

Cerca de treze anos mais velho que Ticiano, Giorgione teve uma vida curta, mas deixou uma obra de imensa qualidade. Utilizando a técnica cromática aprendida com Bellini, Giorgione também seria influenciado pelo estilo de Leonardo da Vinci (1452-1519), com quem se encontrou durante a visita do mestre florentino à Veneza em 1500. Segundo Ian G. Kennedy (2006, p. 7), autor de um livro sobre Ticiano editado pela Taschen, “Giorgione combinara o poder colorido de Bellini com o realismo tonal de Leonardo, criando um mundo ilusório, menos estático e vulnerável à mudanças.” Sua obra mais célebre é a pintura A Tempestade (figura acima), uma enigmática composição cujo verdadeiro significado ainda permanece um mistério. A cor e atmosfera do quadro, no entanto, remetem a um clima irreal, idílico, algo como um sonho, fazendo com que a luz sobrenatural da tempestade pareça ser o tema propriamente dito do quadro.

Com a morte prematura de Giorgione aos 33 anos, em 1510, Ticiano se consolidou como a principal liderança do alto renascimento veneziano. Segundo Kennedy (2006, p. 7), “no mundo de Ticiano, o véu de ocultismo e mistério que se encontrava no trabalho de Giorgione é agora levantado e a humanidade é confrontada de forma mais direta e com uma transparência psicológica baseada na experiência do dia-a-dia.”

Ticiano - Concerto Campestre

Ticiano (c. 1490-1576) e/ou Giorgione (c. 1477-1510) – Concerto Campestre, c. 1511 – Óleo sobre tela, 110 x 138 cm – Paris, Musée du Louvre

Muitos trabalhos iniciais de Ticiano trazem algumas dúvidas quanto a sua autoria, no sentido de estabelecer se foi pintado somente por Ticiano ou Giorgione, ou ainda se era uma obra com colaboração de ambos os pintores. Este é caso da pintura Concerto Campestre (figura ao lado), inicialmente atribuído a Giorgione, mas hoje considerada como obra de Ticiano, a julgar pela linguagem corporal de seus personagens.  No entanto, a obra possui características marcantes de Giorgione, como a luz irreal e um tema misterioso, remetendo a um ambiente pastoral e idílico. Cabe ainda comentar que esta pintura teria servido de inspiração, séculos mais tarde, ao artista francês Édouard Manet para sua célebre e escandalosa obra Le déjeuner sur l’herbe (Almoço na Relva).

Ticiano - Salomé2

Ticiano (c. 1490-1576) – Salomé com a Cabeça de São João Batista, c. 1511-1515 – OST, 89,3 x 73 cm – Roma, Galleria Doria Pamphili

Ticiano - Flora

Ticiano (c. 1490-1576) – Flora, c. 1515-1520 – Óleo sobre tela, 79,7 x 63,5 cm – Florença, Galleria degli Uffizi

Em sua fase inicial, a produção de Ticiano se caracteriza pela proeminência de pinturas de Nossas Senhoras e Sagradas Famílias, bem como por imagens de belas mulheres. Segundo Kennedy (2006, p. 16), “Veneza no século XVI era como Paris na Belle Époque, uma cidade de luz”.  A cidade era considerada uma capital do prazer e suas cortesãs tinham fama internacional. Nesse ambiente, é fácil imaginar que havia uma grande demanda por imagens de belas mulheres, nas quais se encaixam suas primeiras séries de retratos femininos, com composições finais idealizadas. Servem de exemplo dessa produção as pinturas Salomé com a Cabeça de São João Batista e Flora (figuras acima), ambas imagens idealizadas da beleza feminina e com elementos de composição em comum.

Ticiano - Homem com Luvas

Ticiano (c. 1490-1576) – Homem com Luva, c. 1523 – Óleo sobre tela, 100 x 89 cm – Paris, Musée du Louvre

Ticiano foi também um dos retratistas mais procurados de sua época. Em um dos seus retratos mais conhecidos, Homem com Luva (figura ao lado), pode-se perceber algumas características do seu estilo, entre elas a representação da personalidade e o status social do retratado. O olhar cauteloso do personagem, associado a uma expressão algo melancólica, sugerem alguns traços da personalidade do rapaz retratado. Da mesma forma, o começo de um bigode no lábio superior indica sua idade, provavelmente saindo da adolescência e se tornando um adulto, enquanto as luvas lhe dão um ar de sofisticação que sugerem sua posição social. Em termos formais, percebe-se um avanço do estilo pictórico sobre o linear, no qual a figura parece se estruturar mais por manchas de cor do que pelos traços do desenho, com o uso de um suave chiaroscuro e uma dissolução da linha com o ambiente de fundo. Esses elementos seriam característicos não apenas de produções futuras do próprio Ticiano, como também influenciariam artistas nos séculos seguintes.

Ticiano - Assunção da Virgem

Ticiano (c. 1490-1576) – Assunção da Virgem, 1516-1518 – Óleo sobre tela, 690 x 360 cm – Veneza, Santa Maria Gloriosa dei Frari

A proeminência de Ticiano na pintura veneziana da época se consolidou desde cedo, com seus trabalhos para a Igreja de Frari. O primeiro deles, realizado entre 1516 e 1518, é a Assunção da Virgem (figura ao lado), uma pintura de grandes dimensões que rivaliza com os afrescos de Michelangelo (1475-1564) na Capela Sistina e com a Stanza della Segnatura, de Rafael Sanzio (1483-1520). É visível a influência destes artistas neste trabalho de Ticiano. Os apóstolos na parte inferior da pintura refletem o gigantismo e a força típicos de Michelangelo, enquanto alguns elementos iconográficos e de composição parecem ter influência de Rafael. Segundo Lodovico Dolce, um crítico veneziano contemporâneo, citado por Kennedy (2006, p. 31), “a Assunção da Virgem combinava a grandeza e terribilità de Michelangelo com o encanto e realismo de Rafael e das cores da natureza”. A composição mescla um esquema retangular na parte de baixo, onde estão dispostos os apóstolos, com outro circular na parte superior, onde estão inseridos a Virgem e a figura de Deus Pai, simbolizando a eternidade. A ligação entre ambos se dá por um triângulo, com base nas duas figuras de vermelho na parte inferior e com o vértice na Virgem, representando sua passagem para o nível celestial. A Virgem não é representada levitando, mas sendo levada aos céus em pé sobre uma nuvem, uma solução típica do realismo de Ticiano. A obra demonstra um uso magistral do chiaroscuro, apresentando uma luminosidade divina que irradia da parte superior.

Ticiano - Madona de Pesaro

Ticiano (c. 1490-1576) – Madona com Pessoas da Família Pesaro (Madona de Pesaro), 1526 – Óleo sobre tela, 478 x 266,5 cm – Veneza, Santa Maria Gloriosa dei Frari

Outro trabalho de Ticiano para a Igreja de Frari é a Madona de Pesaro (figura ao lado), uma de suas obras mais célebres, também de grandes proporções, e cujos elementos compositivos influenciariam as gerações futuras. Encomendada pelo bispo Jacopo Pesaro, segundo o historiador da rte Ernst Gombrich (1999, p. 331), para “ser oferecido como prova de gratidão por uma vitória alcançada contra os turcos pelo nobre veneziano”. Pode-se perceber uma disposição triangular das figuras, com a Virgem e o Menino ocupando o vértice superior. Entretanto, a perspectiva frontal, tradicional do Renascimento, é substituída por uma visão oblíqua, ao mesmo tempo em que a Virgem e o Menino são deslocados para um dos lados da pintura, colocando-os em posição de serem vistos diretamente por Pesaro, representado de joelhos na parte inferior esquerda do quadro. Segundo Kennedy (2006, p. 37), Ticiano combina “o formato do ex-voto, onde os protagonistas se encaram de frente e são representados de perfil, com a tradicional pintura de altar”. A visão oblíqua também permite que o plano de fundo seja o céu e nuvens, sendo na frente representadas duas grandes colunas, que, segundo a historiadora da arte Ann M. Roberts, “resolvem o enquadramento, [e] representam a entrada dos céus, tradicionalmente identificada com Maria” (DAVIES et al, 2010, p. 600).

Ticiano - Bacanal2

Ticiano (c. 1490-1576) – A Bacanal, c. 1523-1524 – Óleo sobre tela, 175 x 193 cm – Madrid, Museo Nacional del Prado

Também merecem destaque na produção das primeiras décadas de Ticiano as suas pinturas de motivos mitológicos. Encomendada em 1518, por Alfonso d´Este, o duque de Ferrara, A Bacanal (figura acima) faz parte de uma série de três pinturas realizadas por Ticiano para este mesmo contrato, que ainda integra A Adoração de Vênus (1518-1520) e O Triunfo de Baco e Ariadne (figura abaixo). A Bacanal mostra a chegada de Baco à Ilha de Andros, onde seus seguidores aguardam por ele em estado de embriaguez, bebendo direto do rio da ilha, onde corria vinho em vez de água. O próprio deus, entretanto, não aparece na pintura, apenas se vê seu barco ao longe. Ticiano compõe uma paisagem com tons quentes e frios, representando muitas figuras nuas ou seminuas, segundo Ann M. Roberts, “idealizadas quanto baste para nos fazerem crer que pertencem a uma Idade de Ouro há muito desaparecida e convidam-nos a partilhar de seus êxtases” (DAVIES et al, 2010, p. 600). Em O Triunfo de Baco e Ariadne, Ticiano representa o momento em que  o deus Baco encontra a jovem Ariadne, abandonada por Teseu na ilha de Naxos, tendo em Catulo e Ovídio suas fontes literárias. Na pintura, vemos Baco saltando de sua carroça em uma espécie de fascínio apaixonado pela visão de Ariadne, que parece reagir com uma mistura de susto e admiração pelo deus. Baco é acompanhado pelo seu séquito de sátiros, faunos e bacantes, bem como pelos mais variados tipos de animais que parecem mansos e gentis, como que em um estado de embriaguez. Segundo Kennedy (2006, p. 37) é uma das pinturas de Ticiano mais inspiradas em Rafael, sendo que o artista veneziano usou os mais fortes pigmentos então disponíveis no mercado para obter o brilho cromático da obra.

Ticiano - Baco e Ariadne2

Ticiano (c. 1490-1576) – O Triunfo de Baco e Ariadne, 1520-1523 – Óleo sobre tela, 176,5 x 191 cm – Londres, The National Gallery

Durante as décadas de 1530 e 1540, consolidado como um dos grandes artistas de sua época, Ticiano continua acompanhando o ritmo das mudanças criativas da arte, muitas delas tendo sido influenciadas pelo seu próprio trabalho. Sobre esta influência, tanto absorvida quanto transmitida por Ticiano, Kennedy (2006, p. 41) diz que “na Assunção da Virgem, colocou-se a par do Alto Renascimento Romano, na Madona de Pesaro, estabelece um padrão duradouro para o classicismo maneirista de obra de altar, nas Bacanais de Ferrara, estabelece um padrão para a pintura mitológica que haveria de ser válido até o século 19”.

Ticiano - Venus de Urbino

Ticiano (c. 1490-1576) – Vênus de Urbino, anterior a 1538 – Óleo sobre tela, 119 x 165 cm – Florença, Galleria degli Uffizi

Uma das suas obras mais célebres deste período é a Vênus de Urbino (figura acima), uma encomenda recebida do duque de Urbino, Guidobaldo II della Rovere. A figura representa uma jovem nua sobre um leito, em um ambiente ricamente decorado. O quadro é mencionado em uma carta simplesmente como “a mulher nua”, sem haver uma referência à Vênus. De fato, a ausência de alguns atributos, como o Cupido, pode indicar que sua identificação como Vênus possa estar equivocada. Pode ser uma imagem comemorativa de casamento, especificamente uma alegoria do amor conjugal. De qualquer forma, segundo Ann M. Roberts, “o uso da cor por Ticiano registra as texturas sensuais do corpo da mulher, colocadas à disposição do olhar do observador” (DAVIES et al, 2010, p. 626).

Ticiano - Danae

Ticiano (c. 1490-1576) – Dânae, 1544-1546 – Óleo sobre tela, 120 x 172 cm – Nápoles, Museo Nazionale di Capodimonte

O nu feminino sensual é uma produção freqüente na obra de Ticiano. Outra obra representativa deste tema é Dânae (figura acima), uma tela de temática mitológica e com forte apelo sexual. O tema alude ao mito de Perseu e das amantes mortais de Júpiter (Zeus). Dânae era filha de Acrísio, rei de Argos, que ficara sabendo por meio de um oráculo que seu futuro neto estava destinado a tirar-lhe a coroa e a vida. Assustado com a previsão, Acrísio mandou encerrar sua filha uma uma torre, prevenindo-se assim da possibilidade de que ela pudesse engravidar de algum homem e gerar seu neto. No entanto, apaixonado pela moça, Júpiter metamorfoseou-se em chuva dourada e dessa forma pôde infiltrar-se na cela de Dânae e fecundá-la. Dânae daria à luz a Perseu, um dos maiores heróis gregos e que, anos depois, viria a cumprir a profecia, matando acidentalmente seu avô Acrísio. O tema de Dânae costuma ser de forte carga erótica, uma vez que a cena representada usualmente é a da chuva dourada precipitando-se sobre o corpo da jovem. Ticiano pintou várias versões da tela, com soluções formais semelhantes e pequenas diferenças de elementos compositivos. A versão apresentada na figura acima foi encomendada pela família Farnese, do Papa Paulo III, tendo sido iniciada em Veneza e finalizada em Roma. Nesta cidade, a obra teria sido vista, segundo o célebre biógrafo de artistas renascentistas Giorgio Vasari, por Michelangelo, que teria sido muito elogioso, mas comentado que era uma pena que em Veneza nunca tenham aprendido a desenhar. A pose da jovem na pintura é baseada em Michelangelo, mas a ênfase é toda na luz suave e reveladora, captando a textura da pele com uma grande complexidade cromática. Segundo Kennedy (2006, p. 67), “para o público romano pode ter parecido que Ticiano tentava deliberadamente expor as limitações de Michelangelo ao usá-lo em contexto que elevaria a sensualidade veneziana a outra estatura”.

Ticiano - Papa Paulo III

Ticiano (c. 1490-1576) – O Papa Paulo III com os Netos, Alessandro e Ottavio Farnese, 1545-1546 – Óleo sobre tela, 210 x 174 cm – Nápoles, Museo Nazionale di Capodimonte

Rafael - Leão X

Rafael (1483-1520) – O Papa Leão X com Dois Cardeais, c. 1517-1518 – Óleo sobre painel, 155 x 119 cm – Florença, Galleria degli Uffizi

                                                                                                                  Ainda em serviço à família Farnese, Ticiano pinta O Papa Paulo III com os Netos, Alexandre e Ottavio Farnese (figura acima à esquerda). A obra parece se inspirar no retrato do Papa Leão X com Dois Cardeais (figura acima à direita), pintado 28 anos antes por Rafael. Como na pintura de Rafael, Ticiano coloca o Papa ao centro da composição, cercado por duas figuras, neste caso, seus netos Ottavio Farnese, que se curva para beijá-lo, e o cardeal Alessandro Farnese, em pé na retaguarda. Apesar de ter deixado o trabalho inacabado, chama atenção o tratamento pictórico dado ao traje vermelho do Papa, utilizando diferentes tons para realçar a textura do tecido. Ticiano também dá a sua composição uma dinâmica de movimento maior que o trabalho de Rafael, apontando, com isso, algumas mudanças estilísticas que se operavam.

Nas últimas décadas de trabalho, o estilo de Ticiano muda bastante em relação aos seus trabalhos iniciais. Sua pincelada se torna mais solta, sendo hoje considerada por muitos críticos  e analistas um estilo quase impressionista. Suas obras parecem ter um maior apelo dramático, um caráter épico, que estavam em consonância com o espírito da Contra-Reforma. Em seu período tardio, a enorme procura por seus trabalhos obrigava Ticiano a manter muitos assistentes em sua oficina, e somente seus clientes mais importantes podiam esperar obter uma obra inteiramente pintada pelo mestre.

Ticiano - Rapto de Europa2

Ticiano (c. 1490-1576) – O Rapto de Europa, 1559-1562 – Óleo sobre tela, 185 x 205 cm – Boston, Isabella Stuart Gardner Museum

Durante a década de 1550, Ticiano realiza uma série de pinturas mitológicas para o rei Filipe II da Espanha, inspiradas nas Metamorfoses, de Ovídio. Ele denominou esta série de Poesie, indicando a referência explícita a uma fonte literária e colocando o artista como um intérprete, gozando de certa liberdade, dessa fonte. Integra esta série o quadro O Rapto de Europa (figura acima). A cena é também inspirada no ciclo mitológico das amantes mortais de Júpiter. Europa era filha de Agenor, soberano do reino de Tiro (na antiga Fenícia, atualmente, território do Líbano). Júpiter apaixona-se pela jovem e apresenta-se diante dela na forma de um magnífico touro branco. Impressionada com a beleza e gentileza do animal, Europa acaba montando em suas costas, momento em que Júpiter aproveita e lança-se ao mar levando a jovem consigo. Acabam chegando à ilha de Creta, onde o deus se revela à jovem e consuma seu desejo. Das núpcias, descende Minos, futuro rei de Creta. Ticiano representa o momento em que o touro branco lança-se ao mar com Europa às suas costas. As curvas, o intenso movimento e os membros carnudos da jovem Europa atraíram artistas barrocos como Rubens, que chegou a copiar este quadro.

Ticiano - Venus e Adonis

Ticiano (c. 1490-1576) – Vênus e Adônis, 1554 – Óleo sobre tela, 180 x 207 cm – Madrid, Museo del Prado

Outro integrante da série de Poesie é a pintura Vênus e Adônis, na qual Ticiano representa um episódio pertencente ao ciclo dos amantes de Vênus (Afrodite). Apaixonada pelo belo mortal Adônis, a deusa Vênus tenta impedi-lo de partir para caçar. Adônis, no entanto, ignora os apelos da deusa e parte, sendo em seguida ferido mortalmente por um javali. Segundo Kennedy (2006, p. 73), no seu tempo,  a pintura “foi considerada uma das obras mais eróticas de Ticiano, particularmente na compressão das nádegas de Vênus na sua pose sentada, mas também sugere a indulgente condescendência de um jovem perante a reação histérica e super protetora de uma mulher mais velha”.

Ticiano - Alegoria da Prudencia 2

Ticiano (c. 1490-1576) – Alegoria da Prudência, meados da déc. de 1560 – Óleo sobre tela, 75,5 x 68,4 cm – Londres, The National Gallery

Realizada em meados da década de 1560, a Alegoria da Prudência (figura ao lado) é um dos últimos trabalhos de Ticiano. A pintura representa as três idades do homem: juventude, maturidade e velhice. Trata-se de uma alegoria do tempo governado pela prudência, na qual Ticiano representa a si mesmo, seu filho Orazio e, possivelmente, seu sobrinho Marco. Abaixo de suas cabeças são representados, respectivamente, um lobo, um leão e um cão, simbolizando o passado, o presente e o futuro. Acima do quadro há uma inscrição em latim, cujo significado, segundo o historiador da arte Erwin Panofsky (2007, p.195), é: “do (da experiência do) passado, o presente age prudentemente para não estragar a ação futura”. O rosto de Ticiano, na esquerda, está imerso em uma sombra, de onde ele parece rememorar o passado, ao passo que o jovem Marco está iluminado. Entre os dois, Orazio tem parte de seu rosto iluminada e parte na escuridão. Segundo Kennedy (2006, p. 90), “o quadro pode ser uma espécie de testamento artístico, expressando a esperança de que seus entes queridos possam se beneficiar deste legado”.

Ticiano - Pieta 2

Ticiano (c. 1490-1576) – Pietà, meados da década de 1570 – Óleo sobre tela, 378 x 347 cm – Veneza, Accademia

O último trabalho que Ticiano deixou é a Pietà (figura ao lado). Executada provavelmente para o seu túmulo, a pintura mostra uma possível representação do próprio Ticiano como São Jerônimo, ajoelhado aos pés da Virgem com o corpo de Cristo, em uma composição que lembra a Pietà de Michelangelo na Basílica de São Pedro. As figuras são guardadas ao fundo por uma arquitetura rústica, de onde se percebe as estátuas de Moisés e de uma Sibila, representando, respectivamente, o Antigo Testamento e a Profecia da Crucificação e da Ressurreição. É uma pintura em grandes dimensões, com forte carga dramática e com figuras compostas basicamente de luz e cor. Segundo Ann M. Roberts, “o artista aplica a cor em espessas camadas de tinta, mas apesar deste impasto as superfícies perderam todo resquício de solidez material” (DAVIES et al, 2010, p. 628). São figuras etéreas, que aumentam a dramaticidade da cena. Ticiano morreu antes de concluir a pintura, que possivelmente foi finalizada por seu discípulo Palma Giovani (1548/50-1628), cujas intervenções se concentraram principalmente no querubim com a tocha.

Em 1576, Veneza é atingida pela peste e, em 27 de agosto daquele ano, Ticiano morre vítima de febre. A mesma epidemia também mataria seu filho Orazio algum tempo depois. O legado de Ticiano para a arte é muito vasto. Por seu atelier passaram muitos artistas, dentre eles, o jovem Domenikos Theotokopoulos, que seria conhecido como El Greco (1541-1614), vindo da ilha de Creta (que era dominada por Veneza), e antes de se fixar na Espanha. A pintura veneziana após sua morte foi dominada por dois pintores: Tintoretto (1518-1594) e Veronese (1528-1588). Segundo Ann M. Roberts, “enquanto Veronese pintou imagens mais próximas da primeira fase de Ticiano, como a Virgem de Pesaro, com ênfase no realismo, Tintoretto explorou a teatralidade e a pincelada fluida da última pintura de Ticiano, a Pietà” (DAVIES et al, 2010, p. 629)

A obra de Ticiano atravessou os séculos, influenciando de várias formas os estilos mais próximos ao seu tempo, como o Maneirismo e o Barroco, mas também servindo de referência em tempos posteriores, alcançando o Romantismo e a Arte Moderna. O status e a importância de Ticiano podem ser verificados em uma história contada por seus primeiros biógrafos e relatada por Gombrich (1999, p. 331). Conta-se que o grande imperador Carlos V abaixou-se para pegar um pincel que Ticiano deixara cair. Esse gesto, embora hoje pareça ter pouca importância, adquire um significado especial se consideradas as regras da corte vigentes naquela época. Pode ser interpretado como se a máxima expressão do poder terreno se curvasse, de forma humilde e simbólica, ante a majestade do gênio artístico.

(Este texto foi publicado originalmente no projeto Tópicos em História da Arte: escritos e leituras sobre arte e artistas, do Bacharelado em História da Arte da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Disponível em: http://www.ufrgs.br/napead/repositorio/objetos/historia-arte/idmod.php?p=ticiano) (A presente versão inclui algumas modificações e acréscimos).

(Publicado também no portal HACER – História da Arte e da Cultura: Estudos e Reflexões. Disponível em: http://www.hacer.com.br/#!ticiano/em2q0).

Para ver mais obras de Ticiano acesse a Web Gallery of Art.

Para ver outros textos sobre vidas de artistas, acesse o portal HACER – História da Arte e da Cultura: Estudos e Reflexões.

BIBLIOGRAFIA

GOMBRICH, E. H. A história da arte. 16. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1999.

DAVIES, Penelope J. E. et al. A nova história da arte de Janson. 9. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2010.

JANSON, H. W; JANSON, Anthony F. Iniciação à história da arte. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

KENNEDY, Ian G. Ticiano: c. 1490-1576. Colônia, Alemanha: Taschen, 2006.

KRÉN, Emil; MARX, Daniel. Web Gallery of Art. Disponível em: <http://www.wga.hu&gt;. Acesso em: 18 set. 2010.

PANOFSKY, Erwin. A Alegoria da Prudência de Ticiano: um pós-escrito. In: __. Significado nas artes visuais. São Paulo: Perspectiva, 2007.

 

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