Leitura de imagem – Grupo de Laocoonte

Marcelo de Souza Silva (2010)

Grupo de Laocoonte – Cópia romana possivelmente de Hagesandro, Atenodoro e Polidoro de Rodes – Séc. I d.C. – Mármore – Altura: 2,13 m – Museus do Vaticano, Roma

O Grupo de Laocoonte é uma escultura representativa do período helenístico grego. A obra é mencionada na História Natural, de Plínio, o Velho, na qual é relatado que se encontrava, originalmente, na residência do Imperador romano Tito. Plínio atribui sua autoria aos escultores Hagesandro, Atenodoro e Polidoro, da ilha de Rodes. A escultura foi encontrada em 1506, em Roma, tendo causado grande impressão aos artistas da época. Foi adquirida, ainda em 1506, pelo Papa Júlio II, encontrando-se até hoje no Vaticano. Imaginou-se, por um tempo, tratar-se do original grego descrito por Plínio, mas hoje se acredita ser uma cópia ou reconstituição romana.

O grupo é composto por três figuras humanas sendo atacadas por duas serpentes, que se enrolam em seus corpos. As figuras humanas são compostas por um homem adulto, Laocoonte, e dois jovens púberes, seus filhos. Os três estão nus, contorcendo-se e demonstrando uma atitude desesperada para se livrar do ataque das serpentes. Integra o grupo também uma espécie de pedestal de altura baixa e formato quadrilátero, coberto parcialmente por tecidos, que podem representar vestes retiradas às pressas ou que caíram.

Laocoonte está situado no centro do grupo escultórico, sentado parcialmente no pedestal, com sua perna esquerda semi-esticada para a esquerda e para trás, como se estivesse tentando levantar ao mesmo tempo em que tenta se desvencilhar das serpentes. Seu dorso está levemente voltado para seu lado direito, considerando o ângulo de um espectador situado de frente ao grupo escultórico. Seu rosto possui barba e cabelo de comprimento médio e ondulados, estando inclinado para seu lado esquerdo em um ângulo de aproximadamente 45º. Seu corpo mostra uma musculatura muito definida, dando a impressão de estar muito retesado. Seu braço esquerdo está semi-esticado para baixo segurando uma das serpentes. Seu braço direito está voltado para cima e dobrado no cotovelo, com o antebraço voltado em direção ao seu rosto, estando cortado na altura do pulso e com a mão faltando.

A tensão muscular observada por todo o corpo de Laocoonte dá conta de seu estado de dor e sofrimento. A expressão no seu rosto, entretanto, mostra que esta dor é suportada sem levá-lo ao desespero absoluto ou à raiva. Sua boca não parece gritar, pois não está aberta o suficiente para isso, podendo apenas estar emitindo algum lamento ou sussurro. Sua expressão, sugerida pela musculatura da testa e posição das sobrancelhas, demonstra mais uma aflição ou até mesmo tristeza, do que qualquer sentimento de raiva pelo seu destino. “A dor no corpo e a grandeza da alma estão distribuídos em igual medida por todo o corpo e parecem se manter em equilíbrio.” (WINCKELMANN apud ECO, 2004, p. 47)

O jovem que se encontra ao lado direito de Laocoonte está inclinado para trás, como se estivesse prestes a cair de costas. Uma parte das serpentes está enroscada na altura de seus joelhos e na perna direita de Laocoonte, apertando os joelhos do jovem contra a perna de seu pai e sendo, talvez, a fonte do desequilíbrio que ameaça derrubá-lo no chão. A serpente se enrosca no corpo do jovem e o morde na lateral direita do seu dorso, enquanto ele tenta impedi-la com sua mão esquerda. O braço direito está voltado para cima, estando, porém, quebrado na altura do bíceps. Seu rosto está voltado para trás e para cima. É um jovem imberbe e com cabelos de comprimento médio e ondulado. Seu corpo possui uma musculatura menos definida que a do pai, mas também se encontra em estado de tensão.

O jovem à esquerda de Laocoonte encontra-se em pé, curvado para frente, sustentando seu corpo em uma única perna, que se encontra levemente dobrada. A outra perna está levantada e dobrada no joelho, com o jovem tentando retirar a parte final do corpo de uma das serpentes que está enrolada em seu tornozelo usando seu braço esquerdo. O braço direito está afastado do tronco e dobrado para frente e para cima. Há um corte na altura do pulso e falta sua mão direita. O dorso está levemente inclinado para sua esquerda e curvado para frente. Seu corpo possui uma musculatura mais definida que seu irmão, sugerindo que ele é mais velho, e encontra-se também em estado de tensão. Seu rosto está voltado para o lado direito, parecendo estar olhando para o pai. Essa posição pode sugerir, em sua expressão, uma espécie de pedido silencioso de ajuda dirigido ao pai, além dos sentimentos presentes no próprio Laocoonte. Possui cabelos de comprimento médio e ondulados e também é imberbe. Apresenta ainda um tecido pendendo de seu ombro esquerdo, provavelmente suas vestes.

O corpo das serpentes percorre as três figuras, enroscando-se nelas, e possuindo espessura variável. Consegue-se perceber a continuidade dos corpos das serpentes em algumas partes, principalmente onde se enroscam nas pernas das três figuras humanas, mas em outros momentos essa continuidade fica difícil de ser percebida, como nas partes juntas aos braços dos personagens. Uma das serpentes está mordendo o jovem à direita de Laocoonte na parte lateral-direita do seu dorso, e a outra está prestes a morder Laocoonte em seu quadril esquerdo. A sinuosidade de seus corpos parece dialogar com as posições contorcidas das figuras humanas, reforçando a sensação de movimento da cena.

O estilo da obra remete ao período helenístico grego, sendo possível verificar a presença de vários elementos que tipificam a arte daquele período. A carga dramática presente na cena e a grande expressividade dos personagens envolvidos são alguns desses elementos. O sofrimento demonstrado por Laocoonte e seus filhos é palpável e ressalta aos olhos. Além disso, possui um virtuosismo também típico daquele período, com figuras em posições de difícil execução, demonstrando muita perícia técnica. O virtuosismo também se destaca na execução do corpo das cobras, sinuosos e irregulares, bem como no panejamento dos tecidos que aparecem em cena. O naturalismo realista também é uma das características do grupo, que apresenta uma correta anatomia corporal, usada para destacar o sentimento de dor presente à cena.

O episódio representado no grupo escultórico é descrito na Eneida, de Virgílio, e remonta à Guerra de Tróia. Laocoonte era um sacerdote troiano que, prevendo que o cavalo de madeira deixado às portas da cidade de Tróia era uma armadilha, tenta alertar seus compatriotas do perigo de levá-lo para o interior da cidade. Como a cidade já estava condenada pelos deuses, Atena envia duas serpentes contra Laocoonte e seus filhos, que os dizimam, impedindo que o sacerdote obtivesse sucesso nos seus alertas. O episódio, entretanto, serve de advertência para Enéias, herói troiano, de que o destino da cidade já estava traçado, levando-o a fugir a tempo de salvar-se e possibilitando que, no futuro, ele fosse para a península itálica onde seus descendentes, Rômulo e Remo, fundariam a cidade de Roma. O tema era, portanto, muito significativo para os romanos que o viam como “o primeiro elo de uma cadeia de acontecimentos que levou mais tarde à fundação da cidade de Roma” (JANSON, 2007, p. 213).

Nesse contexto, cabe ressaltar que, aliado aos seus aspectos formais, o prestígio que a peça desfrutava em Roma também pode ser medido em termos da relevância de seu tema no imaginário coletivo da cidade, o que vai ao encontro do relato de Plínio de que a obra ornamentava a própria residência do Imperador romano Tito. Esse prestígio acabou sendo resgatado em 1506 com a sua descoberta e imediata aquisição pelo Papa Júlio II. Nos anos seguintes, a obra se tornou célebre no mundo da arte e uma das peças mais preciosas da coleção do Vaticano. Cabe ainda ressaltar a sua grande influência na obra posterior do artista Michelangelo, bem como a de sua estética helenística para os caminhos que a arte trilharia nos séculos seguintes.

BIBLIOGRAFIA

ECO, Humberto (org.). História da beleza. Rio de Janeiro: Record, 2004.

GOMBRICH, E. H. A história da arte. 16. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1999.

JANSON, H. W. História geral da arte: o mundo antigo e a Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

MORENO, Cláudio. Tróia: o romance de uma guerra. Porto Alegre: L&PM, 2008.

VIRGÍLIO. Eneida. São Paulo: Nova Cultural, 2003.

(Este trabalho foi apresentado originalmente, com algumas modificações, na disciplina de “História da Arte I”, do curso de Bacharelado em História da Arte da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 2010/1)

Para ver outras leituras de imagem, acesse o portal HACER – História da Arte e da Cultura: Estudos e Reflexões.

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